A Palavra cantada: o canto congregacional

No fatídico 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, então monge católico, afixou na porta do templo da Igreja Católica Apostólica Romana da cidade de Wittenberg, na Alemanha, noventa e cinco teses protestando contra a Igreja, sugerindo e exigindo uma reforma organizacional e dogmática na mesma. A atitude de Lutero culminou em sua excomunhão da Igreja, bem como também desencadeou a Contrarreforma Católica, que perseguiu os demais protestantes, mas que não foi capaz para impedir a expansão do Protestantismo na Europa. Um dos legados mais importantes e notórios da Reforma Protestante foi o acesso dos cristãos à Bíblia, que passou a ser traduzida em diversos idiomas e propagada através da ascensão da imprensa.

Em 2008, produzida pela BBC Open University, foi exibida uma série de documentários sobre a Música Sacra, que incluía, entre outros títulos, um sobre a influência da “Revolução Gótica” e um outro sobre “Bach e o legado luterano”. Neste último, podemos ver que o canto congregacional passa a ser inserido na liturgia cristã protestante através da Reforma Protestante iniciada por Martinho. “Lutero redefiniu o papel do canto congregacional, até mesmo a parte tocada pelo órgão dentro da adoração cristã; permitir que a congregação cante cânticos em sua própria língua é uma tradição muito significante estabelecida por ele. (…) No centro do pensamento de Lutero estava sua crença que, ao menos aos olhos de Deus, membros da congregação e do clero não eram diferentes. Apesar de qualquer Igreja Católica, na maioria das vezes, o clero cantar e a congregação ouvir, as ideias de Lutero sobre o papel da música na igreja eram bem diferentes. De acordo com a doutrina de Lutero, todo mundo tinha acesso igual a Deus, portanto todos podiam louvar através da música. Então, ele introduziu o conceito do canto congregacional.” O canto congregacional consiste em uma modalidade de canto em que todos os presentes na congregação cantam, em uníssono, o louvor a Deus, sem destaques individuais.

É de composição de Lutero a melodia e a poesia do famoso hino “Ein feste Burg ist unser Gott”, datado de 1529, traduzido para o inglês como “A mighty fortress is our God”. Muito conhecido no meio cristão brasileiro como “Castelo Forte” ou “Castelo Forte é o nosso Deus”. Na Congregação Cristã no Brasil, trata-se do “Hino 31 – Forte Rocha”, que sofreu uma significativa alteração em relação a sua versão anterior “Hino 381 – Forte Rocha”, deixando de ter uma estrofe inteira sob a alegação de possuir versos que causavam estranheza ao serem entoados, além de ser ambíguos: “Ao mandado do Eterno / Fugirá o rei do inferno”. A versão utilizada pela CCB foi traduzida em 1932 pelos anciães João Finotti e Miguel Oliva.

Na contramão da tendência atual da maioria das igrejas, a Congregação Cristã no Brasil (doravante “CCB”) se mantém, ainda hoje, incentivando e admitindo unicamente a música cristã tradicional e o canto congregacional através dos sacros hinos como meio de louvor e adoração em seus serviços divinos e cultos. Em geral compostas por norte-americanos e europeus, que variam desde a Idade Média até meados do século XX, os hinos que integram o hinário “Hinos de Louvores e Súplicas a Deus” são eruditos, clássicos, executados unicamente pelas orquestras compostas de homens músicos, mulheres organistas e também mulheres musicistas, em alguns países. As orquestras são dividas por localidade, de acordo com a necessidade de cada congregação, e possuem uma metodologia própria e unificada de ensino-aprendizagem através da recém-lançada segunda edição do “Método de Teoria e Solfejo – Com aplicação ao Hinário”, elaborado pela Comissão Musical da própria CCB, com referência de estudos mais aprofundados e já reconhecidos de teoria e solfejo musicais, como Paschoal Bona, Bohumil Med, Rafael Coelho Machado, dentre outros.

Martinho Lutero disse muito bem quando afirmou que:

 A teologia de uma igreja está nos hinos que canta.

Ele tinha razão. Quando uma igreja é verdadeira e realmente baseada na Palavra de Deus, seus hinos estarão de acordo e reproduzirão o conteúdo das Escrituras. O que fugir disso é doutrina humana, heresia, contrária à Verdade, que é Jesus Cristo, a Cabeça da Igreja. Pelas palavras cantadas por uma igreja podemos identificar a doutrina que professa, bem como também as doutrinas que, embora não professe, estão no inconsciente coletivo.

Com isso, é gratificante louvar a Deus com hinos, salmos e cânticos espirituais. Entre muitos que poderia mencionar, deixo aqui um hino que, após a alteração do Hinário nº 5, ficou perfeito: “Hino 166 – A graça inefável de Deus”. O apóstolo Paulo, quando escreveu aos coríntios, menciona que neles havia a excelente graça de Deus, a qual era um dom inefável. Aos cristãos de Éfeso, Paulo também escreveu:

Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,
Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),
E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;
Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.
Não vem das obras, para que ninguém se glorie;
Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Efésios 2:4-10

Hino 166 – A graça inefável de Deus

1. Se muitos soubessem que paz sem igual
Tem quem o perdão alcançou;
Por fé buscariam a graça eternal,
Iriam a Deus, que os amou.

A graça inefável de Deus,
Que veio por Cristo Jesus,
É dom excelente que leva aos céus,
Ao reino de glória e luz.

2. Se muitos soubessem que grande amor
Desfrutam os santos de Deus,
Iriam a Cristo Jesus, o Senhor,
Teriam herança nos céus.

3. Se muitos soubessem a glória que há
No reino que vamos herdar,
Creriam em Cristo, que vida nos dá,
Iriam o mal rejeitar.

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2 comentários sobre “A Palavra cantada: o canto congregacional

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