Uma arma infalível

O jovem Renan passou feito um furação pela sala, com o capuz do casaco escondendo o rosto. Subiu as escadas e foi para o seu quarto, dando graças a Deus por não ter encontrado nem seu pai e nem sua mãe no trajeto. Ele chegara da escola três horas depois do usual, não queria correr o risco de ser alvo de um interrogatório.

Ainda mais neste dia, tão atribulado…

Ao entrar em seu quarto e olhar para os espelhos, os hematomas que começavam a surgir e o nariz ainda sujo de sangue trouxeram-lhe à memória os gritos de “Briga! Briga!”. Ele ainda sentia a mão misteriosa que o empurrou para o meio da roda, e o primeiro soco que desferiram contra sua face. Renan, no oitavo ano, nunca foi de confusão, mas depois do segundo soco, não teve escolha: teve que aprender a brigar ali, na hora. Soltou o primeiro soco de revide, o segundo… Depois de trocas de golpes, o outro rapaz caiu, sangrando pelo nariz. Envergonhado, saiu amparado pelos seus companheiros e deixou o aviso: “se prepara pra levar um tiro amanhã, pivete!”

“Se prepara pra levar um tiro amanhã, pivete…”

“Se prepara pra levar um tiro amanhã, pivete…”

Essas palavras latejavam em seus ouvidos como se o próprio Cléber estivesse ali, naquele quarto, sussurrando ao seu ouvido.

Cléber era companheiro de classe de Renan. Não era dos mais perigosos da escola, não mexia com nada errado. Mas o que preocupava era o que o seu amigo Pedro, que o acudiu depois da briga, tinha lembrado após a briga na porta da escola: “Cuidado Renan, o pai dele é segurança. Com certeza tem uma arma”.
Será que Cléber teria coragem de cumprir a promessa? Ou será que era apenas palavras ditas no calor do momento?

Renan tirou a mochila das costas, se deitou e ficou olhando para o teto e se lamentando pela hora em que esbarrou na carteira do Cléber e provou a queda de seu smartphone de última geração, novinho. Foi um acidente. Mas Cléber não entendeu assim. E a discussão dentro da sala tomou proporções maiores na porta da escola, no fim da aula.

E tinha tudo para tomar proporções incalculáveis no dia seguinte.

Renan se levantou, abriu a mochila e tirou com cuidado o que seu amigo Pedro havia lhe dado para o “segundo round” da briga, amanhã. Uma arma.

“Você tem que se precaver, nunca se sabe. Se ele vier, você tem que se defender… Toma, uma arma infalível para você resolver isso…” – disse Pedro, para convencer Renan a levar o revólver para casa, e para a escola no dia seguinte.

Enquanto Renan observava a sua “arma infalível” e pensava nisso tudo, seu Pai bate a porta:

– Renan! Tô indo pro trabalho. Tudo bem com você, filho? Você chegou tarde da escola hoje…

Ali estava a chance. Era abrir a porta e contar tudo ao seu pai. Sobre a queda do celular, a discussão e a briga na porta da escola. Contar inclusive sobre o conselho do seu amigo Pedro. Por que não? Quem sabe seu pai não iria à escola no dia seguinte, conversaria com tal do Cléber e tudo ficaria resolvido, ainda que tivesse que pagar o celular do rapaz, o importante era resolver a situação e ficar em paz.

Mas, ao mesmo tempo, o medo tomou Renan. Como explicar para o seu pai sobre a briga? E se ele ficasse nervoso? Imagine só quando ele ficasse sabendo que teria que pagar um smartphone de 2 mil reais? Isso porque nem falamos da arma na mochila… Porque envolver seu pai numa confusão dessas, que está ficando perigosa, quando ele mesmo tem a solução ali na mochila? Se bem que aquilo não dava para ser considerado como uma solução, mas…

– Ok, filho. Não respondeu nada, deve estar tudo bem. Tô indo. Fica com Deus filhão!

Renan sempre conversou muito pouco com o seu pai, principalmente agora, na adolescência. Ele nunca acreditou que seu pai pudesse entender seus dramas. “Ele viveu em outros tempos, não pode entender..”. Assim pensava Renan, e por isso não acreditava que seu pai poderia ter uma solução. Na verdade, ele tinha medo era da punição que ele achava que viria.

Bem, a essas alturas, seu pai já tinha ido para o seu trabalho noturno. Agora não havia mais jeito. Era ir “preparado” pra escola amanhã e ver o que aconteceria…

***

Bem, essa história se repete todos os dias, nas vidas de muitas pessoas.

Com certeza já aconteceu com você. Comigo já aconteceu.

Quantas vezes nos metemos em enrascadas na vida – seja por querer ou não – e depois da ameaça de que tudo fugirá do controle, damos atenção as circunstancias, damos ouvidos aos conselhos dos amigos, mas não recorremos à Deus, nosso Pai. Seja porque pensamos que Ele jamais entenderia nossos problemas, ou porque acreditamos ter a solução perfeita para o problema, ou porque preferimos dar ouvidos aos conselhos dos amigos, ou simplesmente por medo de uma eventual punição.

E todas as vezes que queremos resolver os problemas com as nossas próprias mãos, corremos sérios riscos de transformar um problema pequeno em um problema gigante, assim como o nosso amigo Renan, que está prestes a tornar uma briga corriqueira de escola em um caso de polícia.

Esse texto continua tratando do nosso relacionamento com Deus, mas na esfera pai-filho. E preferi ilustrá-lo com essa pequena história para que possamos refletir no nosso relacionamento com Deus. Muitas vezes dizemos que conhecemos Deus, mas isso não é tão verdade assim… Tanto que na hora das provações e tentações, a primeira coisa que surge é a dúvida: “Será que Deus me ama?”, “Será que Ele está comigo?”, “Porque Deus está permitindo isso na minha vida?”.

E as perguntas seguem… “Será que Ele me perdoa?”, “Será que Ele ouve minha oração?”, “Porque não estou sentindo a presença de Deus?”…

Nos piores momentos, fazemos perguntas como se não conhecêssemos Deus. Ou pelo menos como se não O conhecêssemos o suficiente.

Pouco conhecemos, e pouco conversamos com Ele…

Quantas vezes você ora por dia? Por semana? Será que é só na igreja?

Se não oramos, isso significa que sequer contamos os nossos problemas para Deus. Sequer O buscamos. Sim, Deus conhece nossas petições antes mesmo de nos ajoelharmos. Mas se não pedimos, é como se estivéssemos agindo como o nosso amigo Renan: duvidando de que o pai possa solucionar o problema.

Jesus Cristo morreu por nós para nos tornar filhos de Deus. E é esse relacionamento que Ele quer que tenhamos com Ele: de pai e filho. Não basta dizer que é filho de Deus, você precisa ter um verdadeiro relacionamento de pai e filho com Ele.

Se o Renan tivesse um verdadeiro relacionamento com o seu pai, ele não teria problema nenhum em contar sobre o seu problema na escola, e evitaria uma tragédia.

Imagine quantas tragédias você já teria evitado em sua vida se tivesse um verdadeiro relacionamento de pai e filho com Deus?

Pense nisso.

PS.: E Renan? Será que ele deu um jeito de avisar seu Pai sobre seu problema na escola, ou confiou na sua própria solução para resolver o problema?

Ficou curioso?

Então, dê você mesmo um final a essa história. Você vai contar pro seu Pai sobre o seu problema, ou você está achando que tem uma “arma infalível” para resolver tudo isso?

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